quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A flor ainda viva junto ao verde. Um homem idoso curvado sobre a terra trazia musgo nos dedos e um caracol novíssimo suportava a luz.


Isabel de Sá, in Nervura, Mirto, Porto, 1984
O PRINCÍPIO DA REALIDADE


Se a arte
não for insubmissa
se não permanecer
desobediente
e não escapar ao controlo
é o quê?


Se a arte
não for insurrecta
se não permanecer
pedra viva escaldante
é o quê?
a arte
se não disser Eu Sou?


Isabel de Sá, in revista Brilho no Escuro nº2, Setembro. 2009
TRAGÉDIA E PARAÍSO SEMPRE


O poder redentor das palavras
bala no coração até ao fim
mineral escondido no poço
escuridão no olhar dos amantes.


Crianças vestidas de beleza
estrada cega de luz.


Heróis amarrados a si próprios
rio parado no lodo
tirania do desejo ou privação
a loucura brilhando no rosto.


Isabel de Sá, in revista Brilho no Escuro nº2, Setembro. 2009
LONGA É A NOITE


Quando me vou embora
não sei. Peço-te
só um murmúrio
mostra-me o rosto.


Quando me vou embora
a infância foge.
Aquela última vez
à procura do fim.


Peço-te
só um murmúrio
mostra-me o rosto
fala-me de suicídio
para que possa chorar.


Isabel de Sá, in revista Brilho no Escuro nº 2, Setembro. 2009

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

NÃO SE PASSA NADA


Nada de cinismo
a vida é boa
ainda não há guerra
nem peste nem fome.


Ninguém cospe no teu rosto.


O fruto cai da árvore
a fêmea é fértil
o macho vigoroso
as crias alegram o prado
e o sol brilha brilha.


A ciência não pára
de nos surpreender
e dar conforto:
nascer crescer ser velho
e falecer. Moléculas
átomos e neutrões
amparam-nos na queda
dizem-nos o que é o amor.


O amor também é feito
de vermes e bactérias.
A sua chama
transforma os nossos corpos
na mais bela cinza.


Isabel de Sá, in O binómio de Newton E a Vénus de Milo - Antologia. ALETHEIA Editores, Lisboa, Novembro. 2011
SIMBIOSE CHEIA DE GRAÇA

Os perdidos
aqueles sem compromisso
perturbam a ordem
assustam os rastejantes.
Esses verdadeiros heróis
bebem o ácido
e comem detritos
crentes na glória.


Existem os outros
os sustentados
no círculo delirante
acorrentados à ficção da espera.
Cortesãs de secretária
expostas ao ofício
aos caprichos da clientela.


E o terror do desamparo?


O escravo tem acesso ao tapete do senhor
à sua cama. Talvez ao seu olhar.
Também será aquele que não existe
mas é a presença.


"Estás destinado à beleza.
Nunca verás a luz."
- palavras do senhor.
A beleza é então treva
escuridão sem fim?


O rebanho encontra o pastor
virtuoso
cheio de encantos.
Renuncia à tempestade
aceita a provação e a caridade.
O rebanho cumpre. Na sombra alimenta o ódio.
Abismo e esplendor perpetuam o idílio.


Ninguém sabe como vai acabar.
A voz da paixão é alienante
e todos caem.
Entretanto a noite desce
arrasa tudo:
personagens
ilusão e romance.


A roleta da fama atormenta os mortais.
Escapam à miséria do anonimato.


A velhice?
Queremos para sempre
o luxo de uma pele jovem
coração vermelho vivo.


Sabia-se o caminho
havia um farol
a cruz o fim do túnel.
Entretanto o caos alastra.
Reconhecer que algo vai mal
visão do outro lado
o assunto percorre um longo caminho
ninguém entende a espera.
Ninguém quer ser Nada
pensamento em desordem ou até alucinado.
Reconhecer que está mal é paleio.
As vozes ouvem-se a si próprias
neste sistema esquizofrénico.


Vale a pena usar poucas palavras
ler e reler
ficar dentro das ideias no escuro pensamento.
A paisagem é verdade ou  mentira?
Segredo é não saber de que lado sopra o vento.
Coitados dos sonhadores
vivem à margem do dia e da noite
longe de tudo.


Compra-se o futuro
o cartaz
e também o microfone.
Quanto tempo é que isto vai durar?
Parece magia
temos de enfrentar a dor
o sofrimento
quando nos cruzamos na rua
talvez em frente ao espelho
ou diante da porta trancada.


Isabel de Sá, in revista Brilho no Escuro nº1, Junho. 2009
Juventude e beleza, também
decadência e devassidão. Tudo
é possível por ser interdito.
Homens de fogo, mulheres de lama.


Saíram do mundo para a minha pasta
forrada a papel de fantasia.


Usam ligueiros, pénis
e soutiens. Máscaras e luvas.
Há zonas no corpo enegrecidas
pelo chicote. Amam-se, fornicam.
Exibem o ódio, a quase demência
de um mundo maldito.


Isabel de Sá, in O Brilho da Lama, & etc, Lisboa, 1999